novembro 17, 2011

Bravo ato de covardia

Carta de um (quase) suicida


Uma, duas, três... Eram doces, mas o final já não seria tão doce assim. Era doce o gosto de morte.
Quatro, cinco... e o desespero começa a bater, que tipo de suicida lê a bula mesmo? Ou será que foi só garantia de não tomar o suficiente, ou toma-lo?
Que tipo de seuicida lê a bula? Na dose certa os sinais vitais teriam que ser monitorados, ou seja, corria risco de morte... mas o que seria pior do que o risco de vida que já corria?
Mas quando chegou a hora da sexta eu desisti, o desespero chegou forte, comecei a ofegar, o coração disparou, o que eu estava fazendo?
Com o perdão da piada maldosa, eu morria de medo de morrer, então por que fazia aquilo?
O que me levou a atitude drástica de tirar uma vida, e pior de tudo, a minha.
Gritei, gritei e gritei... de dor, de ódio, de raiva, de dor de novo.

E que dor, meu Deus, que dor.
E então gritei pela minha mãe, que no meu breve momento de sanidade, se perdeu no meu desespero (e no dela).
Garanto que, se eu sobrevivesse, ela me mataria depois, aliás, por pouco não me ajudou a terminar o serviço, garantindo o sucesso dos meus planos.
E entre prantos e devaneios eu disse, a frase que resumia tudo: "Tudo que eu toco apodrece".

Não me lembro direito do resto, só me lembro de repetidas vezes dizer NÃO, agora não sei se negava o que me era oferecido, ou se negava o que eu mesmo tinha me proporcionado.
Me sentia mole, era até uma moleza gostosa, o que a tornava ainda mais desesperadora.
Ela me embalava, me fazia sereno, e me sugava a vitalidade.
Mas que tipo de suicida lê a bula?
Eu sabia que a reação seria aquela, eu esperava por aquilo, eu procurei aquilo então eu oscilava entre torcer pra ter tomado o bastante, e rezar pra me safar dessa.
E me deixava embalar, e então o gosto já não era tão mais doce, muito pelo contrário, era amargo doce do fracasso (do qual hoje, em quase sã consciencia, me orgulho muito pela incompetência)
Meu corpo começou a se vingar da atrocidade, e eu só rezava para não ter sequelas.
Vomitava, mas o que queria colocar pra fora infelizmente não estava no meu estômago... Na verdade tudo que chegou no meu estômago nesse dia foram os remédios e meu cúmplice: O copo d'agua.
E eu só rezava pra não ter sequelas, não do meu ato de desistir de não viver, e sim de toda a dor que me encorajou a isso.
Desistir é para os fracos e covardes: Não tenho força e nem coragem o bastante para isso.
" Embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu"
Sarah Westphal

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